sexta-feira, 30 de abril de 2010

Notícia de um pequeno caso amoroso

Trilha sonora para leitura: Silversun Pickups
http://www.youtube.com/watch?v=z-mxBDuRaZ8


Roberto Blatt


Quero relatar um episódio de amor que durou uns três dias e que tomo como um modelo de caso amoroso/patológico, porque doeu, cujo ciclo dura três dias mas bem poderia ser três anos. Obviamente também quero reconquistar a garota, o que se mostra impossível, aparentemente, o que é o problema, o que é ruim. Por fim, um lembrete: tudo aqui pode ser mera imaginação, ilusão retrospectiva.


Conheci uma menina outro dia no James. Ela estava sentada no balcão e eu me aproximei reparando. Menina de aparência exótica como uma turca ou uma iraniana, e até seu jeito de se sentar era elegante, suave e cosmopolita. Aliás, talvez eu repita essa palavra, cosmopolita. Não sei dizer se nossos olhos se cruzaram, porque eu fiquei tímido e desviei o olhar não por intimidação, mas por certa reverência...


Os cabelos curtos e escuros pareciam bombril ondulado, com aquelas curvas finas que as meninas usam em Tóquio. Eram macios. Seus olhos grandes de fato tinham uma sombra ao redor dando-lhes aspecto de quem está com olheiras; o brilho desmentia qualquer sensação de ressaca que alguém pudesse imaginar. A boca era rosada, num rosto de tons moreno-indianos, e tinha o desenho daquelas lindas bocas de mulheres negras: o relevo de duas pontinhas no meio, que se deslizam pelos lados abrindo balõezinhos no lábio inferior.


Tinha um quê de desamparo, e uma beleza esperta. Usava o jargão “amizade” dos tempos de Didi Mocó. Era esquiva como uma adolescente rebelde, mas empurrava já com certa suavidade quando me repeliu. Isso, caros leitores, sobre a suavização do empurrão, é para ser uma analogia do amadurecimento, se vocês forem condescendentes comigo: quanto mais rude o empurrão, mais imatura a pessoa, ao contrário, os empurrões mais delicados são sinais de maturidade.


Disse-lhe de repente, sem cerimônia, e pausadamente, que ela era mesmo muito bonita e interessante e intrigante. Foi algo assim, meio que na lata. Não deu bola. Insisti. Desisti. Fugi, saí de perto. Voltei, olhei e tentei conversar de novo. Foram movimentos rápidos, mas na cabeça de gente embriagada o tempo muda. Talvez tenham sido lentos.


Ela me disse que eu tinha cara de quem conquistava muitas pessoas com as palavras. Fiquei sem resposta; hoje responderia que não tenho mesmo outras opções e atributos de conquista, se é que tenho esse. O melhor elogio que já recebi na vida de cantadas.


“- Vou te dar uma chance de me conquistar com as palavras, me diga algo interessante.”


Fiquei embasbacado. Nessas horas nada do que se diga é poético, inda mais sob pressão. A única coisa que me ocorreu foi dizer que queria beijar as suas bochechas, o que convenhamos é meio ridículo. Ela relutou, virou o rosto de lado tentando se esquivar. Senti que era uma garota rebelde, talvez mimada. Roçei seu rosto no beijo mais afetivo que pude imaginar naquele momento, num gesto amoroso mesmo, e ela não me deixou sair: procurou minha boca ou eu procurei a dela, não sei. Perdoẽm a breguice das minhas palavras, mas é que aquele instante inicial, o milionésimo de segundo inicial, que é quando se supera a apreensão da possível falta, esse instante de glória parece durar uma eternidade.


A noite teve seus momentos. Engraçados e quentes. Quando acabou eu disse que queria namorar com ela. Me entrego fácil, beira o patético. Mas é verdade. E o mais engraçado é que eu mesmo me senti chocado com esse pedido completamente inusual nas atuais táticas ficantes. Caras espertos não fazem, certo?


No dia seguinte fomos ao cinema. Perguntei se podia beijá-la e ela disse não. Entrei em agonia e tentei comunicar-lhe que era ou queria ser especial, que não era mais uma pessoa dessas que se beijam e se afastam como num estranho ritual indígena, que não era ou não queria ser uma pessoa comum, dessas que os filmes de Woody Allen retratam tão neuroticamente. Haveria alguma forma de reverter?


O segundo “não” soou com aquela sabedoria autoritária e imbecil da irredutibilidade feminina: nunca, jamais mesmo deixe que uma mulher diga não duas vezes, isso sela uma derrota definitiva. Os olhos me revelaram essa prerrogativa quase bovina do poder da fêmea. Estava mesmo perdido, pensei. Ainda que para mim o “não” seja apenas uma palavra que pode virar “sim”, senti-me como um produto que submetido a um exame mais acurado, a um segundo exame, não foi aprovado. Isso tudo deve ser besteira minha, entretanto, qualquer leitor mediano já deve ter sacado que este texto não é tão pretensioso, se chegou até aqui.


Perguntei se ela não havia gostado de mim. Respondeu que um pouquinho. E por que veio ao cinema comigo?


“ - Por causa do filme, apenas.”


Foda ouvir isso. Não tive condições de responder que poderia ter assistido aquela besteira de Sherlock Holmes sem a minha companhia porque a garganta apertou. Fiquei em silêncio um tempo e ela disse que eu tinha mais uma quadra para falar o que quisesse. Achei pouco, afinal havia me arrastado até o seu encontro detonado pela bebedeira do dia anterior e sem ter dormido ou comido durante todo o dia, e mesmo assim compareci. Quis dizer-lhe o quanto a sua companhia me agradava mesmo nessas condições. Nada.


Tentei nos dias seguintes enviar e-mail's, telefonemas, mensagens. Não respondeu e desligou o telefone na minha cara. Entrei em desespero, a agonia da rejeição, de não poder ficar com uma menina tão bonita, charmosa e engraçada. Fiquei realmente desesperado e tentava contato impulsivamente, sem dar tempo à moça, como se o meu bem-estar dependesse daquilo. Não consigo entender esse tipo de problema.


Na tarde de hoje tomei um porre e olhando no espelho lembrei de umas caretas que ela fazia. Só nesse momento atinei que ela estava me imitando, de palhaçada, curtindo com a minha cara. Ocorre que me divirto as vezes com essa jocosidade, com essa leveza espertalhona. Achei aquilo uma lembrança tão boa da sua beleza que me tranquilizou, suplantou a ansiedade. Ao menos por enquanto estou feliz com essa lembrança. Conclui também que gostei tanto dela que quero deixá-la em paz. Os tempos mudam. Essa técnica da “lembrança agradável” é a minha sugestão para casos desse tipo. Nem sempre funciona.


P.s: nessa minha luta interna de Davi contra Golias, onde o subjetivo e o objetivo estão em guerra, onde não se sabe se estou mesmo “amando” a pessoa (por causa do eterno clichê de que “nem a conheço”) ou se estou amando o que senti e portanto o ápice do narcisismo, consegui ficar um dia inteiro sem perturbá-la com minhas insistentes súplicas. Sim, porque já estou implorando e implodindo com aquele esqueminha de auto-valorização que demora prá ligar, ou nem telefona e tal. Foda-se isso, e mais isso de que “o que é prá ser será”. Estou prá ontem, mais do que na lanterna dos afogados e não tenho pejo de admitir. E a menina vale a pena. Eu também. Ela faz cinema na FAP, é bonita, parece ter bom gosto para música, é jovial, charmosa e engraçada. Sei pouco sobre ela na verdade. Sei que já namorou e que um dia o namorado disse que ela era idiota ou algo assim, meio que do nada e fim. Ei, eu nunca faria isso (espero que ela leia esse texto, que na verdade é prá ela).


P.s.2: “Amizade”: prometo te pedir em namoro de forma séria, mas nosso namoro será bem de boa, prá te deixar feliz. Será para nos conhecermos melhor, e quem sabe aprender coisas sobre o cinema, a arte, a vida e o coração. Prometo comprar camisas novas.


P.s.3: Passaram-se três meses e continuo a fim de, se um dia revê-la, fazer um enorme esforço para transmitir altíssimo astral e dizer sorrindo: - Princesa, que bom reencontrá-la, tenho flores prá ti!


Trilha sonora para fim de leitura:
http://www.youtube.com/watch?v=zc8hbSM1zVo

20 comentários:

um ponto de vista diferente disse...

Muito bonito esse texto Ruba! Discutindo com você nunca saberia que tens um lado sentimental e que escreve TÃO bem. Ficou muito bonito mesmo, senti até vergonha dos meus ¬¬ hahaha
E não é breguice! Todo apaixonado é brega, idiota e dono de um coração burro. Sei bem como é!
Beijo :*

reportagem disse...

Grande Blatt, todos temos nossas crises de paixões súbitas e eu que já dividi o mesmo teto com você sei bem como são estas coisas entre nós, somos parecidos e alguns "atributos" dos quais sugere nem sempre são a barreira. Pessoas de grande sensibilidade confundem a cabeça dos outros neste mundo louco em que vivemos, de sentimentos breves e indecisos. Lembro-me e tenho até hj a cópia de uma carta que escreveu, eu estava apaixonado como vc está agora e depois de todos os recursos esgotados lhe pedi que me escrevesse uma carta de recomendação. lembra? pois é, foi muito legal e consegui cativa-la com suas palavras mágicas, infelizmente na semana seguinte ela fugiu com o ex que a maltratava e me deixou esperando em casa com um jantar, vinho e presentes. É assim! minha dica é que se a pessoa não tem a sensibilidade para perceber, guarde estas lembranças para você como um momento mágico, como esta crônica, pois a insistência nisto pode reverter esta coisa lúdica num estresse.
abraço

suelen disse...

Muito bom o texto ;)
Beijos :*

Adriana Camila disse...

doce e sutilmente intrigante ! Parabéns.. arrasou no texto ! te admiro, desde sempre... sua aluninhaaa Adrii ;)

Charlie disse...

Amei sua forma de narração... O texto ficou ótimo, direto, e repleto de sentimentos, diria eu.
Essas 'paixõezinhas' repentinas são as mais intensas as vezes, as que nos machucam mais. Sei o quão isso pode nos afetar, mas lhe garanto que ficar com as recordações as vezes é melhor opção.
Beijos, meu caro.

ingrid disse...

Olha te juro que li até o final.
adorei tua historia de uma noite frustrada. Uma noite que você encontrou em alguém, uma presença assim tão agradável, e que te fez por um momento ou mais achar , que ela poderia ser uma pessoa que te trouxesse um pouco mais de "alegria" na vida. eu sei lá. Olha Roberto adorei mesmo o texto, e boa sorte na espera da resposta de alguém que eu sinceramente acho que não apareça . Ps: meu sorvete!

Gilmar disse...

Bom texto Ruba! Esses "casos" são um misto de boa com péssima sensações...

Clóvis Butzge disse...

Acho que você não está apaixonado... pra mim é tesão! Sua "breguice" é apenas uma estratégia rssss, pois o texto não é brega, brega é o narrador-personagem que você criou a fim de convencer a beldade. Acho que se a garota ler e tiver um pouco de sensibilidade literária, ao menos marca um cineminha por ti e não pelo filme! Depois, sei lá... mulheres...
PS: estou ouvindo a seleção da "Miranda Turtles"... River of Babylon... vichi! faz tempo...

lucian disse...

nossa,perfeito esse seu texto blatt, seriu c pode ate não acreditar, mais ate mi ajudou em algumas coisas,coisa q vc disse ali q mi fizeram pensar na vida tambem.... A-M-E-I...

tuth disse...

Caramba, que texto bem escrito! dá gosto de ler. Eu que não te vejo há uns 2 anos, confesso que vizualizei as cenas perfeitamente e até soltei risadas altas em algumas partes mais irreverentes... Quanto à sortuda moça (que parece combinar muito com você), parece ter se assustado com o pedido precoce de namoro, acho que passou uma falsa imagem de "desesperado". É dificil consertar uma má impressão, mas se há conserto, é através da amizade (broxante, não?). Você é uma das pessoas mais inteligentes que ja conheci (sério!), se ela gosta de conteúdo, vai se interessar por sua amizade! Se após isso você não conseguir cativá-la, ainda sim terá ganho uma amiga ;)
Abração e boa sorte! (me mantenha atualizado heim!)

Ginho disse...

ó-lho-lho, professôr eu não imaginava esse seu lado, Talvez por conhece-lo mais por professôr , talvez pela lembrança da formatura, acho que isso se deve a diferença do ambiente, ou das pessoas não sei.
Bom, creio que na paixão esse lado romantico tende a aflorar ou se revelar.Focando no texto

Gostei do seu estilo de texto e do seu narrador/personagem, muito embora, para mim não tenha esclarecido a passagem de tempo no desfecho do texto.

Lamento não focar no seu estilo literario, que acho eu, era o que você queria que eu comenta-se, e não no assunto, é que eu simplismente não me sinto no direito de comentar sua escrita.

Na minha humilde opinião amor só serve para sofrer, de uma forma ou de outra.

Creio que o estrago tenha sido relativamente grande em decorencia do curto tempo em que se aconteceu não?

Conhecendo você minha reação inicial foi penasr que isso teria outro nome, que não fosse "amor", numa breve relida talvez eu possa ter me enganado.

Tenho mais comentarios, ou sugestoes sobre o ocorrido, não postarei aqui por que talvez você prefira assim, não sei, então, se desejar minha opinião sabe onde me encontar né?

Priscila disse...

sei que você é sensível, aliás sabia desde a primeira vez que conversamos, eu não escrevo bem nem um pouco mas de amor repentino e sem final feliz eu entendo.não há no mundo melhor remédio pra aliviar as idéias da nossa mente confusa e a agonia do nosso coração desapontado do que as palavras. linda forma como você descreveu a moça se eu fosse ela ia me sentir uma princesa! mas outras paixões virão talvez não tão subitamente mas com a mesma intensidade. lindo lindo parabéns.

Nanci Kirinus disse...

Oh, Blatt! Sempre gostei do seu jeito de escrever, inteligente e com um humor delicioso! Parabéns!! Beijos!

João Luiz disse...

Prezado Amigo Blattysaurus Rex:

Venho por meio deste externar (meter o pau) minha opinião sobre o testiculo postado pelo amigo.
Em primeiro lugar quero dizer que o texto é de excelente qualidade, visto que deve ter quebrado muitas vidraças na ansia de encontrar divina inspiração.
Trata-se de um amor platonico!
Alias por falar em platonico, Platão escreveu:
"A amizade é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro" ele ainda disse que é possível descobrir mais sobre uma pessoa numa hora de brincadeira do que num ano de conversa, nos seu caso foram três anos em três dias, lembrando algo dito mais ou menos assim 50 em 5 hwehehehehehehehh.
mas isso amigão, a vida segue, e vc ainda vai encontrar sua alma gêmea, aquela cuja fechadura coincide com sua chave e cuja chave coincide com fechadura delaa hehehe. Ai fique tranquilo e quebre umas vidraças para relaxar de preferência ao som de the doors ou creedence. ehehhehehehe

Bruno Damaceno disse...

muito bom texto hein beto...mas dúvido que seja verdade, vc é muito tosco pra isso... Ah, a propósito, esse texto deve ser uma copia também, talvez do Verissimo.. ;). Abraços

Bruno Damaceno disse...

muito bom texto hein beto...mas dúvido que seja verdade, vc é muito tosco pra isso... Ah, a propósito, esse texto deve ser uma copia também, talvez do Verissimo.. ;). Abraços

jaque_lazzaron disse...

Que eu posso dizer? A guria perdeu a chance de dar um pra um cara muito legal...Logo, a guria é burra. E arrogante.
No que se refere à produção escrita, a qual eu tive o prazer (ou não) de conhecer a (é com h ou sem h? Bom... foda-se o verbo!) alguns dias atrás;já disse que é interessante e divertido. Aliás, conhecendo você como só eu mesmo posso dizer que conheço (pigarro...), tenho certeza de que se você achasse uma droga ou pouco merecedor de atenção, jamais teria publicado e muito menos estaria preocupado com o que qualquer pessoa diria. Certinho? E não late!

Evaldo disse...

O Beto de sempre.
Um gênio com suas agonias.
Se quiser ajuda pra resolver seu problema não me procure. não resolvo nem os meus.RSSRSRSRs

LILI disse...

Olha amigo, não há duvidas que você escreve bem. Li, mais achei meio chato. Faz tempo que não conversamos, esperava outro tipo de assunto, achei adolescente demais.

EvF disse...

Não é o comentário de quem faria vc suspirar ou de quem faria este texto ter continuidade, mas vivenciei, experienciei esse momento junto com suas palavras e agradeço por partilhar/multiplicar/confidenciar, desejando tantos outros momentos de milionésiomos de segundo. Abraço

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