quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006

Mini debate sobre o aforisma 254

254.
Crescimento do interesse. – No curso de uma formação superior tudo se torna interessante para o homem, ele sabe ver rapidamente o lado instrutivo de uma coisa e indicar o ponto em que, utilizando-a, pode completar uma lacuna de seu pensamento ou confirmar uma idéia. Assim é afastado cada vez mais o tédio, e também a excessiva sensibilidade emocional. Por fim ele anda entre os homens como um naturalista entre as plantas, e percebe a si mesmo como um fenômeno que estimula fortemente o sue impulso de conhecer.

Nietzsche, Humano, Demasiado Humano .



Carla disse:
"quanto a sensibilidade emocional Não. Até mesmo os preconceitos advindos de um conhecimento majoritariamente a priori não impedem que nos guiemos por toda força de nossas emoções.Mudam os critérios, mas sentimos com a mesma intensidade. Não há como treinar o sentir Roberto, e o desenvolvimento de aptidões intelectuais não tem nada a ver com isso. Essa generalização não cabe."



Escrevi o texto abaixo respondendo o comentário:

Conhecimento "majoritariamente a priori"??? O que você quis dizer com isso?
Bem, seja lá o que for, não parece se aplicar ao aforisma em questão. Quanto a "treinar o sentir", não vejo porque seja algo impossível, pelo contrário: a civilização humana é um projeto visando domar a animalidade humana.

A "generalização" de Nietzsche é concisa e coerente: na medida que se torna mais "científico" o homem adquire recursos intelectuais para afastar o tédio e a excessiva sensibilidade emocional. Pode-se pensar que há uma correspondência entre intelecto e a inteligência emocional do indivíduo.

A "formação superior" permite ao indivíduo preencher lacunas de seu pensamento e isso por si só, é um modo de afastar o tédio. Aliás, como era um psicólogo sofisticadíssimo, Nietzsche deve ter intuido a relação entre o tédio - proveniente da baixa da capacidade intelectual - e a excessiva sensibilidade emocional. Tédio é uma espécie de depressão. A excessiva sensibilidade emocional é alimentada pelo tédio. Quando penso em tédio me vem a cabeça a imagem daquele pedante, metido a intelectual, que acha que sabe muito e portanto se enfastia com o mundo limitado e inferior que vê ao seu redor. Esse indivíduo refugia-se na sensibilidade em nome de seu medo de se arriscar a aprender algo novo, ou a pensar em outra perspectiva. Além disso, ainda crê que está defendendo a última fronteira da autenticidade: a emoção. (em tempo: padecem de uma profunda presunção intelectual: acham que estão entediados porque se acham muito inteligentes)

Comenta-se muito sobre o rompimento de Nietzsche com o romantismo que tinha justamente essa idéia: oh, não posso mais suportar tanta emoção! meu coração é verdadeiro e superior ao pensamento! Nietzsche, creio, deve ter mandando os representantes dessa idéia para o inferno.

O teu comentário, Carla, teria destino parecido, se me permite a brincadeira, pois parte de uma distinção entre pensar e sentir com a qual Nietzsche talvez não concordasse. E como há uma ligação direta entre pensar e sentir - eles são o mesmo - um pode influenciar o outro perfeitamente. Portanto, um pensamento aguçado leva a um sentir aguçado e vice-versa. Aqueles que acham que sentem coisas muito intensas - tédio, por exemplo - e que acham-nas superiores ao pensamento, na verdade sofrem de fraqueza mental e, por consequencia, emocional.

Mas, concordar que um indivíduo ideal, como Nietzsche apregoa, suporta todas as adversidades da existência, o tempo todo, é realmente difícil. Essa generalização, porém, não se pode dizer que ele tenha cometido. Ele apenas alega que, estando com a mente a todo vapor - não em velocidade, mas em qualidade de intelecção - o indivíduo obtem recursos que naturalmente vão do racional ao emocional, já que não há interrupções entre eles.
Isso basta?

2 comentários:

gbsene disse...

Bem me parece que a sensibilidade emocional tem tudo a ver com o desenvolvimento intelectual, pois não se pode imaginar o sincretismo como o âmago do ser humano.

A. disse...

254.
Conhecimento, a cura para o tédio?
Segundo Nietzsche, para escapar a essa "depressão intelectual", o homem pode criar o Jogo. Aquilo que escapa às nessecidades básicas, aquilo que não é obrigação. Aqui, o Jogo é o Conhecimento superior. Quanto mais o home se infla de informações, menos se desgasta com emoções de pequeno valor, que podem causar verdadeiro desequilíbrio se marteladas constantemente pela mente humana. O homem procura o saber como a criança gulosa que colhe uma fruta da árvore. Morde, mastiga e engole. Vale lembrar que sempre estaremos à mercê do tédio e das emoções desnecessárias, tão logo nossa mente se encontre na tarefa insuportável de não ter em que pensar. Assim, a criança gulosa que é o homem é também portadora de uma fome insaciável de conhecimento. Não satisfeita, comerá outra e outra assim que o sabor da última estiver enfraquecendo na boca. Talvez essa fome se deva ao tremendo asco que o intelecto têm ao tédio. Talvez exista um desejo secreto de o conhecimento ser realmente infinito. Sem saciedade, o Jogo não acaba. O perigo é o Jogo virar Vício, uma desculpa para não encarar as próprias emoções e separar os sentimentos verdadeiros daqueles que são fruto de auto-especulação emocional, quando o tédio se faz presente e a mente se entrete deformando emoções e pensamentos. Seja lá o que for, continuarei Jogando.

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