domingo, 13 de junho de 2010

Impressões anacrônicas sobre Pasolini - a propósito de Accattone.

Roberto Blatt


Assisti quando jovem, a uns 10 anos atrás, ao filme “Saló 120 dias de Sodoma”. Menciono minha juventude, para perdoar a impressão negativa que o filme me deixou, uma vez que à época, leitor de Sade, esperava algo mais impactante, no sentido pervertido mesmo que é a grande investida sedutora do Marques contra o moralismo, e de libertação das pulsões sexuais mais primitivas e “agradáveis”. Romances como Justine, por exemplo, sempre me pareceram altamente excitantes, no sentido erótico da palavra. Entre decepcionado, pela expectativa adolescente, e imbuído de certa amoralidade nietzschiana, descartei Pasolini considerando-o quase um conservador que mexe com fogo: taxei o cineasta como um mero militante provocador, insinuante, porém controlador.


Hoje, passado algum tempo, tive a oportunidade de ver Accattone (1961), seu primeiro longa, cujo personagem central, homônimo, é uma espécie de malandro italiano, um cafetão. Desde o começo, no entanto, ele me pareceu incrivelmente ingênuo: é uma pessoa singela que faz lembrar o Cândido, de Voltaire – com sinal invertido, digamos “malévolo”, ou mesmo o nosso Macunaíma e sua preguiça existencial - mas ao mesmo tempo tem várias mulheres e por fim se apaixona pela mais provinciana e tímida daquelas que ele pretendia explorar. E é uma paixão tola porque quando tenta prostituí-la pela primeira vez toma um porre e, afetado por uma crise de ciúmes, ameaça jogar-se de uma ponte. É impedido, facilmente pelos amigos, o que dá certo tom de comédia à cena.


Se Pasolini pretendia fazer um cinema poesia já nessa sua primeira película, diria que é um conto para as crianças de hoje ouvirem antes de dormir. Dá a sensação de ser uma poesia tão simploria - pelo enredo, pela abordagem quase didática de temas históricos e políticos, pelo fluxo das imagens - e, mesmo assim, acaba seduzindo o espectador a fortiori.

Uma explicação para esse poder de sedução da obra talvez esteja na força das melodias de Bach que a acompanham, combinadas a um cenário extremamente pitoresco. Tal percepção salta aos olhos e, apesar de sua obviedade, não deixa de ser um elemento fantasticamente importante . Entretanto, a pergunta não cala: como é possível que esse filme prenda a atenção? Será apenas a força da musicalidade religiosa associada a um gênero cinematográfico tipicamente mundano?

Balbucio uma resposta que aponta certo senso de humor: Accattone e outros personagens falam e praticam cruezas com um jeito blasé e cruel, exibindo, às vezes, um pequeno sorriso de canto de lábio que transmite a sensação de certa empatia com suas vítimas. É como se soubessem que a prostituta que está sendo espancada ou caluniada apenas está do outro lado no momento, num lado em que eles também estarão algum dia: prazer e dor, constituintes inseparáveis da vida.

Esses personagens têm falas bem decoradas e encenadas, como num teatro: se dizem famintos, mas não aparentam fome, se dizem indignados mas demonstram apatia. Nem quando “expressam” raiva vemos qualquer contorção em suas faces. Apenas Madalena lembra a típica explosão italiana de gestos, conversas mais gritadas e mesmo assim ela tem que se mostrar conformada com a vida. O que parece uma ironia, mas não uma ironia fria e sim latina, pressupondo que exista diferença entre esses dois termos. Me ocorre que talvez seja essa a mensagem do filme: o homem latino é um hedonista irônico, ou um religioso-sensualista, se me permitem forçar a definição.

O camarada Victor Tartas me disse que os personagens de Pasolini só se revelam no final. Accattone foge a essa regra pois desde o princípio o malandro aparenta transparência, ao menos superficialmente. Creio, amigos, que estou falando da atuação. E ela é peça fundamental numa atmosfera de certo “cinismo lúdico”, que nos acomoda ao personagem, como se telegrafasse seu próximo passo, talvez devido a simplicidade dos seus gestos, ou talvez ao vazio de seu “lugar social”. Mesmo quando chora no ombro de um rival, não nos surpreende: apenas achamos graça no inusitado gesto homoafetivo de um marginal com outro.

O desfecho parece coroar esse transito livre entre o bem e o mal: é quase o fim de um mártir que, ascético e moribundo, ainda consegue consolar o amigo dizendo “Estou melhor assim”. Seria um final heroico clássico? Uma apoteose latina, discreta e incisiva? Ou a ironia típica de quem pretende uma revolução comunista, onde os marginais invertem a pirâmide social, ao menos do ponto de vista ético?

No Brasil o filme foi nomeado “Desajuste Social” o que daria certa vantagem à segunda opção, a tese de um cinema militante, esquerdista, o que inegavelmente condiz com o comportamento do diretor, um homem engajado. De minha parte ignoro resposta adequada para essas questões e talvez elas nem se oponham ou sequer sejam relevantes para a apreciação da obra. Não posso deixar de dizer, entretanto, que se trata de un grand finale para um grande filme, cujas sutilezas provavelmente ultrapassam as questões políticas, historicamente datadas.

Aquela Itália do pós-guerra, retratada por Pasolini, já é uma terra idílica.



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17 comentários:

SlumdogAngel disse...

Assisti esse filme há muitos anos, época em que a juventude nao me deixou apreciar o neorealismo de Pasolini em estado puro. Após ler o teu texto, tive vontade de "reencontrar" essa obra e dar a ela uma visao mais adulta.
Obrigada pela inspiraçao!

Coisas de Dadá disse...

é Blatt... vou tentar acertar e baixar este filme direito...vamos ver se a minha impressão é a mesma da sua.
bjs

Daniel L. Habib disse...

As queixas que nos fazemos intimamente parece, mostram nosso lado indignado com o mundo. Também me indigno quando encontro a malandragem e o cinismo, e não menos a ironia fria ou a perversidade crua. Antes, me vejo indigno porque não me identifico com essas coisas, e talvez (talvez) por isso não seja digno delas. Minha indignidade da indignidade me faria menos malandro, cínico, ironicamente frio ou perversamente cru como um filósofo? Não sei...
Gosto de ser esse jeito, meio lúdico, meio didático e meio blasé, mesmo não sendo um comunista fora de época.
No mais, compartilho das dúvidas
Abraços

Gabriel disse...

A impressão que deixa do filme é instigante, vou ver se consigo puxar e ver essa obra.

grande abraço!

jaque_lazzaron disse...

A bem da verdade não conheço praticamente nada do cinema italiano. Acho-os muito machistas e pedantes! O homem italiano pensa que é o centro do universo e que seu umbigo é buraco negro dele. Mas para não dizer que sou uma total ignorante, lembro-me de um filme do qual não conheço produtor nem diretor, mas que marcou muito: "A classe operária vai ao paraíso". Realmente fantástico! Em especial a cena em que todos estão entrando na fábrica e um sindicalista fica berrando algo sobre eles não terem direito à luz do sol, pq qd sairem dalí já será noite e por aí vai.
Talvez assista esse em que fizestes tuas observações, mas não garanto. À primeira frase machista que aparecer e darei "stop". Te voglio bene!

giovana.1000 disse...

Assisti ano passado o filme: “Saló 120 dias de Sodoma” e não gostei muito, vi mais por curiosidade mesmo e confesso que nem prestei muita atenção.
Interessei-me pelo segundo filme que você citou “Accattone”, gostei da maneira que você falou sobre ele, atento aos mínimos detalhes. Acabei baixando e assisti hoje mesmo. Gostei do filme, mas me irritei várias vezes com o personagem principal. Extremamente vagabundo, não queria trabalhar nem que estivesse morrendo de fome. E o pior, achava que os outros é quem deveriam trabalhar para sustentá-lo. Achei ele folgado, imaturo, egoísta e como você mesmo disse, ingênuo. Mas mesmo passando raiva com o personagem, teve vários momentos que ele me fez rir. No começo achei cômica a cena em que ele resolve se matar pulando da ponte. Acho que aí já nos diz muito sobre o personagem.
Ah, e sobre a garota que Accattone se apaixonou, eu não creio que ele a amava de verdade. Acredito que ele apenas ficou encantado com a ingenuidade da moça no começo e logo viu uma oportunidade de ela ser outra mulher que iria sustentá-lo. Está certo que depois ele ficou perturbado com a idéia dela se prostituir, mas acredito que se Accattone não tivesse sofrido o acidente, futuramente ele iria tratá-la como tratava Madalena. E então sim ela iria acabar se prostituindo e servindo aos caprichos dele.

Roberto Blatt disse...

Querida Gi: fico imensamente feliz que você tenha essa sensibilidade tão bonita, entretanto discordo um pouquinho da tua crítica ao personagem: rigorosamente falando trabalho é uma imposição, mas não algo natural e inquestionável. No caso de Accattone tenho a impressão que a vida dele não foi muito uma escolha e sim uma situação inevitável. Enfim, não o condeno, na verdade. Claro que sou contra a prostituição e tudo mais, mas o personagem me agrada. Penso que ele não tem muita margem de manobra para guiar sua vida e mesmo assim possui uma personalidade ricamente curiosa.
Mesmo assim, repito, fiquei muito feliz com tuas observações e em receber notícias de uma ex-aluna tão promissora.
Grande beijo.

Juliano Grus disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
reportagem disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Juliano Grus disse...

Acho que comentar em Blogs é sempre uma merda! terceira tentativa, lá vai:


Grande Blatt, ler seus textos é como conversar pessoalmente com Diógenes de Sinópe em seu mais puro cinismo, uma verdadeira comédia de humor negro recheada de conclusões bombásticas.
Não é de hoje que conheço seu lado mais impetuoso, desde as fabulosas cantadas às prostitutas do Passeio púbico, digo, público, até a recomendação que me fez para assistir “Saló”, há uns dez anos atrás. Nesta ocasião lembro-me que fiquei chocado, mas fui até o fim naquela sessão de Cine Ritz, que começou com umas quinze pessoas e no clarear do abre e fecha da porta na lateral da sala restei eu e um outro indivíduo com aparência suspeita ao final da sessão. Na mesma ocasião conversei com minha irmã, não estou lembrado se mencionei, mas ela me perguntou por que eu estava tão estranho e respondi que tinha assistido a um filme poderoso, sem maiores explicações. Ela perguntou: onde? E eu disse: no Cine Ritz! Depois ela queria me matar, porque conheceu um gatinho que lhe convidou para ir ao cinema e sem saber recomendou que fosse ao Ritz ver um filme poderoso com ela (queria fazer moral, visto minha recomendação, já que sou cinéfilo), ela me disse que o cara nunca mais ligou. Ela se sentiu uma doente.
Blatt, que você é um doente eu já sabia, pois nos negamos a seguir recomendações da mesma receita, esta mesma que o Tartas abusa antes de tomar chope. Acho o Pasolini um tarado brocha que fazia sexo com a cabeça que tem acima do pescoço (quando não estava a andar de ré), no entanto li “Saló” depois disso, por curiosidade, e constatei que o saudoso Maquês ganha de nós quatro juntos, não nós de quatro juntos, falo de mim, você, Tartas e Pasolini (que por sorte morreu do jeito mais glamuroso para ele), seria um terror uma suruba dessas, no entanto creio que não podemos comparar obras cinematográficas com literárias, e apesar da demência acho Pasolini fabuloso em seu contexto, principalmente na adaptação desta obra.
Ainda não vi o tal do Accattone, mas vou procurar. Depois disso vou te convidar para sairmos com uma amiga minha que trabalha no laboratório de física nuclear de Gran Sasso, na Itália, que está na área. Não sei se ela vai curtir Pasolini, mas podemos encher a cara de vodka com clonazepan e perguntar a ela se o Grande Colisor de Hádrons vai acabar com o mundo num buraco negro.

Beijo!

LUZENAIDE disse...

Olá amigo!
Não coneço nada sobre essa dimensão cinematografica, mas confeço que a maneira que você escreveu deixou-me curiosa. E com certeza irei assistir.
Através de seus escritos pude imaginar como seriam as cenas... o que é bom. Coisa que só um bom filósofo como você consegue fazer, sempre com especificidade e sem perder a criticidade.
Saudades.
Beijos

um ponto de vista diferente disse...

Devo admitir que não conheço esse filme. Mas depois de ler um texto tão bem escrito de uma obra cinematografica que desconheço, até assistirei ao filme!
Beijo RUBA!

My World Is Black disse...

Seu relato sobre o filme é deveras instigante, e deixou-me com uma imensa vontade de assisti-lo.

Sérgio disse...

Bom, ao se tratar de cinema europeu, eu tendo a excluir filmes italianos, portugueses e espanhois.(salve algumas excessões, talvez seja apenas impressão minha,(provavelmente erronea), mas não posso deixar de notar, algumas semelhanças entre Accattone, e Taxi Driver.(imagino se compartilha desse ponto de vista?)

devo dizer, que seu texto asas detalhado parece entusiasmado ao escrever.

fiquei curioso para ver se mihna impressão, de semelhança entre Taxi Driver e accatone, se mantem após assistir o filme, ou fora mero devaneio meu, ao ler seu texto.

abçs

Roberto Blatt disse...

Caro Sérgio: não me lembro de Táxi Driver em pormenores, mas a grosso modo diria que são bem diferentes. Quem sabe um dia eu reveja Táxi Driver e de repente mudo de idéia. Mas agradeço o comentário.
Abraço

F.F. Targa disse...

Fiquei curioso. Não assisti Pasolini. Agora é a hora. Gostei da crítica, Santelena. :^)

EvF disse...

Blatt!
Não costumo navegar por entre filmes antigos, assim agradeço a motivação para ver um filme que aborda temas tão caros, e relaciona-os de forma tão pitoresca. Baixei o filme perfeitamente através dos links e pude contemplar muito do que você expôs. Ótima crítica!

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